sexta-feira, 26 de julho de 2024

 Beijo 


Substantivo de todos os gêneros, raças, etnias, fases e idades, de toda a gente. 


Ato de tocar os lábios e entrelaçar as almas, pressionando delicadamente ou com  volúpia (a depender do momento) como forma de expressar afeto, carinho ou desejo. 


Recomenda-se. 


A você, recomendo os meus. 


Gisele Nunes

sábado, 3 de outubro de 2020


 Ao papai bonitinho e à mamãe filósofa,

Ontem foi o tão esperado dia da conclusão do curso de Pós-graduação em Psicopedagogia! Ufa, essa foi a mais difícil empreitada acadêmica a que me propus, comparando tudo que fiz até aqui.
Mas foi só na manhã de hoje, em um efeito colateral súbito e inesperado, que me dei conta do que aconteceu! Tamanha ousadia, enorme compromisso assumido. A partir de agora estarei oficialmente apta a tornar leve o fardo de muitas pessoas, sobretudo crianças, com dificuldades e transtornos de aprendizagem.
Sei bem como é difícil aprender. Sei o quão pesado e difícil é o fardo quando se nasce com transtorno, quando se percebe diferente dos outros, quando se caminha mais devagar que a multidão!
Quantas vezes enxerguei no olhar dos meus professores e orientadores um misto de piedade e descrença, quantas vezes ouvi que eu era “burra” ou incapaz!
Mas guardava a força da voz do papai bonitinho e da mamãe filósofa em minha alma. E como mola propulsora, essa força me fez teimosa, resiliente, perseverante.
Desisti algumas vezes, cansada. Perseverei quase sempre motivada pelas incessantes lembranças da infância: meu pai dizia que eu era muito esforçada e eu não queria decepcioná-lo; minha mãe dizia que eu deveria estudar muito para ser dona do meu próprio nariz.
Cheguei, mas não é o fim: é o início de um novo ciclo.
Palavras têm enorme poder e suas palavras me levaram mais longe que a maioria poderia imaginar. Agradeço a vocês no sentido mais profundo da palavra gratidão. Agradeço a vocês, onde vocês estiverem, papai bonitinho e mamãe filósofa, pelos laços fraternos que nos fazem mais fortes!
Por Gisele Nunes - Pedagoga e PSICOPEDAGOGA.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Testamento



Ai meu Deus, de repente uma terrível dor, assim: do nada! Do pescoço, irradia pelo braço esquerdo até o cotovelo. Era tanta dor, que não hesitei em consultar o Dr. Web. Na busca: “dor braço esquerdo sintoma”. Era melhor nem saber. O diagnóstico foi terrível, me fez tremer!

Deitei-me na cama, segurando o cotovelo, quase morta de dó de mim mesma: tão moça. Como poderia eu partir para o outro mundo, assim tão jovem! Em instantes a vida passou pelos meus olhos, como um filme bom.

Muitos amigos eu fiz. Sentiriam a minha falta? Uns sim; outros nem tanto. Sem falsa modéstia, sei que faria falta ao mundo, nem tanto pelas minhas boas obras, porém muito mais por tudo que ficou por fazer.

Tenho uma pequena dívida, pagável, eu acho! Não tenho imóveis ou joias raras. Não deixo animal de estimação. Deixo muitos sonhos, ideias, desejos, muitas histórias, uma árvore, um livro e duas filhas. Deixo também fotografias, discos, livros, vitrola, um piano (que não toca mais), uma máquina de costura de manivela, ferro de passar a carvão, máquina de escrever, oito máquinas fotográficas analógicas. Quem vai querer?

Lembrei-me do meu amor. Ah, isso não é justo! Logo agora que encontrei o grande amor da minha vida! Já reservei um pacote de viagem em lua de mel, mas o noivo sequer foi comunicado da condição do noivado, ainda nem me declarei.

Não fui a Buenos Aires, nem a Paris!

Dei um pulo da cama. Tá decidido: a morte terá que ser adiada. Não, não posso partir! Tenho compromissos. Ainda bem que se tratava apenas de contratura muscular!


Por: Gisele Nunes (23/10/2017)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Cartas



Já escrevi cartas de todos os tipos.
Cartas formais, cartas com pedidos especiais. Já escrevi aos deputados e senadores deste país solicitando-lhes maior comprometimento e lisura. Escrevi também para meus colegas educadores pedindo-lhes que mantenham o entusiasmo e dedicação e que se preparem com humildade para o novo tempo. Escrevi até para Santo Antônio a fim de dizer-lhe que a vida é boa, estou muito agradecida, coisa e tal, mas que está muito difícil viver tão só (vixe...), nessa hora até esqueci as formalidades espirituais.

Já escrevi cartas para pessoas queridas e distantes contando sobre os acontecimentos da minha vida e sobre os fatos à minha volta. Escrevi aos parentes e amigos a fim de felicitá-los pelos dias especiais.


Quase sempre me esquecia de colocar as cartas e cartões nos Correios! Oh céus, como eu amo a modernidade, nesses novos tempos enviamos através de redes sociais ou aplicativos!


Escrevi muitas cartas de amor, mas essas eu não enviei, não por esquecimento, não enviei por não ser correspondido o amor. Ainda que as enviasse seriam cartas sem resposta. Correspondência é intercâmbio, reciprocidade, comunicação entre pessoas. No meu caso eram apenas cartas mesmo, cartas que eu escrevi, coisas que eu senti... Não correspondido!

Por: Gisele Nunes

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

CABELO RUIM





Que pente que te penteia? Cabelo de Bombril, cabelo de piaçava... cabelo ruim!

Ah, ruim é não ter cabelo. (EU)

Sei não, no seu caso... era melhor ser careca!

Eu já ouvi de tudo e tudo tão ruim quanto ao aspecto estranhamente alvoraçado dos meus cabelos. Se eles pudessem ouvir, entrariam em depressão profunda! É bem verdade que eles apresentam comportamento inadequado às vezes, gostam de pregar peça e assustar as pessoas pela manhã e nem sempre me obedecem. Já tivemos dias de luta e dias de glória. 

Assim como os meus cabelos, eu tenho uma personalidade expansiva do tipo “me ame ou me odeie”. Na escola a galera do “me odeie” não perdoava: meus cabelos eram motivo de deboche e piada. Minha “amiga” de classe perguntou-me uma vez:
_ Quando chove molha o seu rosto? 

Maldita a hora que meu olhar denunciou a tentativa de entender a pergunta a fim de respondê-la. A "amiga" se antecipou:  
_É porque percebi que sua franja é uma marquise (risos)! 

Putz, eu não achei graça. Ah, esses adolescentes são cruéis!

Eu usei de tudo que me indicaram: banana sem semente com mel, abacate, babosa e maionese. Maionese? Pois é, não foi uma boa dica: fiquei uma semana sem sair de casa para não ofender o olfato de amigos. Nada resolveu. Indisciplinados, os mais de 200.000 fios de cabelos que moram na minha cabeça passaram a andar armados e por isso foram presos sem direito a habeas corpus.  

As coisas pioraram consideravelmente, os fios e eu passamos a utilizar drogas fortíssimas como formol e seus derivados. De usuários eventuais à dependência total, o prazer era todo meu. Já não ouvia ridículas piadas. Além do mais era só acordar e ir, simples assim. Mas depois de alguns anos eles se entregaram e as pontas duplas evidenciavam uma overdose. 

Encontro-me agora em processo de desintoxicação, transição capilar. Nada será como antes, já dizia o meu amigo mineiro! Sou liberta das amarras, de todos os grampos e elásticos que me prenderam, de todas as tolices que ouvi, feliz com os meus cachos indefinidos! 


Cabelo ruim? Que nada, ruim não é o que está na minha cabeça, ruim mesmo é o que sai da boca, é o que vai dentro da cabeça e do coração de algumas pessoas.

Por: Gisele Nunes

domingo, 11 de junho de 2017

MARIA FUMAÇA

Conservatória (RJ) - Setembro/ 2015


Enquanto ele (SOLENEMENTE) a ignora, ela se derrete por inteiro. Nunca soube interpretar o silêncio alheio, não sabe o que lhe vai à cabeça, mas ela gosta das palavras e ama a racionalidade que o conduz. 

E como um maquinista sábio, ele deixa que a Maria Fumaça grite, assovie, corra em trilhos; no entanto, é o maquinista, em absurda discrição, quem determina o tempo entre uma estação e outra. Ah, pobre Maria, que se julga livre e ávida, seu corpo inteiro se move alegremente na direção e velocidade que o Homem da Máquina imprime. 

"Deixe as coisas acontecerem, a vida é o que é, e pronto! Não se preocupe tanto", disse ele certo dia.

E de silêncio em silêncio, entre uma palavra e outra, ela suspira aliviada ao vê-lo chegar lá na estação para mais uma viagem. 

(Por Gisele Nunes)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ESTOU CANSADO

Santa Teresa - RJ (2016)


Estou hoje muito cansado, não é cansaço físico, nem mental. 

Estou cansado de mim mesmo: cansado das escolhas que fiz. Do lugar em que me encontro, dos encontros e lutas que travei, quase em vão.

Cansado de gente que acha que sabe o que diz, que se melindra com tudo, que me faz medir palavras.

Ahhh, estou muito cansado.

Estou cansado das roupas que vesti, dos sapatos que calcei, dos caminhos que percorri. Hoje estou de pijamas.

Estou cansado das opiniões que defendi, e em nome delas resisti, argumentei, protestei.


Hoje eu quero encerrar o drama. Hoje eu quero férias, quero ficar na cama.

E não só isso, hoje eu quero mais. Quero o direito de mudar a direção, mudar meu rumo.

Deixem-me em paz.

Vou ficar em silêncio, vou fazer as malas, vou fazer faxina, jogar fora todo sentimento velho, palavra azeda, pensamento amargo.

Amanhã tomo a estrada ou tomo um trem, não hoje, porque hoje estou cansado.

Por: Gisele Nunes
(Agradecida)


domingo, 2 de abril de 2017

REALEJO

Praça Santana - Piraí RJ (2015)

Não, não tive sorte no amor. Todo tipo de sorte eu tive: tenho bons amigos, a boca cheia de dentes, dinheiro para o necessário... Mas amor: não tive. Tive um, dois talvez, mas perdi. 

Não posso reclamar da vida, não tenho esse direito. 

Passo pela porta do cinema, nem ligo, olho para o outro lado, me faço de distraído. Passo pela praça e nem vejo enamorarem-se os casais, só vejo as pedras do caminho.

Não me atrevo dar trela pra gorducha, nem pra magrela. Mal enfadado é pior que desacompanhado. Não quero o traste do espinho, tenho medo que me pelo de trairagem e desafeto. Uma hora diz que quer, outra hora não quer mais: tá doido, sô!

Peito ardido? Sei como se cura não!

Vivo só, e daí? Vivo comigo mesmo. Vou caminhando, desse jeito. Finjo que nem quero; precisar, ah, eu nem preciso! Mas o diacho é que às vezes me distraio de verdade e meu peito reclama o vazio! Sai pensamento torto, sai daqui, por favor!

Enrolo o fumo, enrolo o tempo, vou vivendo bestamente. Besteira mesmo é essa mania que a gente tem de viver em par! Já larguei dessa ideia, e faz tempo que larguei.


Por: Gisele Nunes 
(Agradecida!)

sábado, 25 de março de 2017

Voucher


Maria Carolina é grande amiga e temos muitas afinidades, tais como um gosto musical eclético, gostar de viajar e de andar pelo centro do Rio, além da solidão, é claro! Carol ainda acredita que encontrará o grande amor de sua vida, quando tropeçar e cair nos braços do ser encantado. Bem, foi mais ou menos assim que encontrei o amor da minha vida, mas isso aconteceu por volta dos meus 18 anos. Já não os tenho mais há muito tempo, nem os meus 18 anos, nem o amor da minha vida, que perdi não sei onde, nem quando, mas faço votos e torço de verdade para que ela encontre o seu, do jeitinho que imaginou!

Combinamos, como é de costume, o que iríamos fazer no final de semana. Dessa vez, o programa teria que ser planejado com certa antecedência, pois iríamos ao show de uma banda famosa, na Lapa, e era certo esgotar os ingressos. Ficou decidido então que Maria Carolina compraria os ingressos antecipadamente pela internet.

Dois dias depois, deixou-me um recado no WhatsApp, dizendo que o ingresso estava comprado e que eu deveria levar um quilo de alimento não perecível, o tal do ingresso solidário. Eu sinceramente achei bem legal que ela me considera uma pessoa solidária. Disse-me também que eu não me preocupasse, pois nos encontraríamos no local de sempre e ela levaria o Voucher.

Para tudo!

Como assim: Maria Carolina tropeçou e caiu nos braços do ser encantado e não me contou nada? O Voucher também vai? Quem seria esse cara? Afinal, Carol já falava nele com um tom de intimidade e até o convidou para ir ao show! Fiquei tentando digerir essa história e pensando em quais seriam as suas reais intenções para com a minha amiga. Voucher, de certo, seria negro, com a cabeça raspada, desses que usa shampoo mesmo sem precisar. Não muito baixo, pois os meninos pequenos não fazem o tipo da minha amiga, nem muito magro, nem muito forte; normal, assim no seu número. Juro, gastei algumas horas montando seu arquétipo e mais outras tantas construindo seu perfil psicológico e outras ainda conversando mentalmente com o cara aquelas coisas que a mãe diz quando conhece o namorado da filha.

Para uma grande amiga, desejamos sempre grandes encontros. Ela é linda e merece a pessoa mais fofa do planeta, pelo menos é o que eu acho! Mas não queria antecipar demais as coisas, afinal, seria apenas o início do relacionamento entre Maria Carolina e Voucher!

Nos encontramos no local marcado e vi Carol caminhando em minha direção, sozinha: uai sô! (pensei). Minha ansiedade não me permitiu fazer muitos rodeios e fui logo perguntando:
- E aí!
- Tudo bem?
-  Ahm, cadê ele? Tá atrasado, não vem, vai nos encontrar no show?
Carol sorriu um sorriso estranho:
- Ele quem?
- Seu amigo?
- Amigo?  
- É... O Voucher?
- Ahhh, o Voucher, tá aqui na bolsa! Lembrou-se de trazer o alimento?
- Como assim tá na bolsa?

No dicionário: Voucher é um termo de origem inglesa que significa recibo ou documento que comprova o pagamento e o direito a um serviço ou produto. Em inglês, o verbo vouch significa "atestar", "confirmar".

Retirou o papel impresso da bolsa, que nos daria o direito de trocar pelos ingressos na bilheteria. Depois de lhe revelar a confusão provocada pela minha ignorância, do verbo ignorar, no sentido de desconhecer, sugeri que colocasse esse lindo nome em seu primeiro filho. Assistimos ao show... E eu, com a sensação de ter assassinado o namorado da minha amiga. Já estava até gostando dele!  Mas foi ela quem me consolou:


- Fica assim não, amiga, isso vai passar. Ele nem era tão bonito assim!

Por: Gisele Nunes
Para: Vanessa Abreu, com carinho!!!

sexta-feira, 17 de março de 2017

VIDA MARIA



Existem muitas Marias em mim
Em cada Maria, muitas histórias
Em cada história, uma vida
Vida Maria.

Lá vai, lá vai Maria, pelo mundo outra vez
Tentando de novo ser Maria.

Fui Maria menina, menina doce e moleca,
que brinca de panela e boneca,
subiu em árvore e correu com perna de pau,
bola de gude e quartel general.

Fui Maria moça, moça ousada e levada,
em teatro de comédia,
do absurdo da vida à tragédia,
subvertendo a ordem
em show de banda de rock.

Fui Maria mulher, dedicada e amiga,
Maria sagrada, Maria profana.
Maria da vó, da mãe e das filhas
Sou Maria de mim mesma.
Maria que roeu a corda e que enfrentou enchente,

Todas as Marias ainda vivem em mim
Sou eu mais que a soma das partes
Sou eu Maria dos Anjos, Maria das Dores, Maria das Artes.

Maria, que nem é meu por batismo,
Mas tomo emprestado de todas as Marias do mundo
Assim, me apresento a quem me é apresentado.
Em cantigas, em versos ou prosa
Não nego a luta nem fujo à prova.
Me lanço na aventura e corro mundo afora
Me afirmando Maria, ontem e agora.

Existem muitas Marias em mim
Em cada Maria, muitas histórias
Em cada história, uma vida
Vida Maria.

Lá vai, lá vai Maria, pelo mundo

Tentando ser Maria outra vez.

Por: Gisele Nunes

domingo, 5 de março de 2017

Silêncio meu




Quero escrever aqui e agora, e vou falar depois, sobre o silêncio meu! Não me refiro ao silêncio dos sábios, mas também não falo sobre a palavra dos maledicentes. Preciso, é urgente, aprender a silenciar e encontrar a palavra que apenas constrói, edifica, esclarece.

Meu pensamento é vulcão e minha respiração ventania. Sou como furacão entre cidades pela força do que acredito e digo, despejo, vomito. Imagino e respondo até o que nunca ouvi, mas pensei ter ouvido. Minha imaginação é tsunami de mim mesma.

Digo bem alto aquilo que deveria ter calado. Não temo a multidão, falo em público, publico para o mundo o que sinto, o que sei e o que não sei. Da minha vida, nada há que se oculte.

Sim, sou desastrada com as palavras, confesso. Já magoei pessoas queridas, matei sonhos, destruí projetos, afastei o ser amado, fechei portas e janelas. Palavras mal ditas são aquelas que se diz no momento errado, para a pessoa errada, ainda que tenha que ser dita.

Exercitar o silêncio não é tarefa simples: exige bom senso, sensibilidade, sabedoria.

Bem ditas sejam as palavras que se desenham em minhas mãos e que saem da minha boca. Bendita seja a palavra!

Por: Gisele Nunes

quarta-feira, 23 de março de 2016

Porta aberta

Casa França brasil - RJ 2016
Abri aporta do meu coração
Convidei você pra dançar
Adormeci saciada
Amanheci em espanto
Somente eu fui capaz
De sentir o encanto?

Cada qual com sua expectativa
Não vou lhe cobrar esta conta
Mas vou novamente convidar:
Quer me conduzir na contra dança?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Existem pessoas com alma de borboleta.

Ilha Grande - RJ 2016
Borboletas são inquietas:
Inquietude não significa inconstância, insatisfação ou infidelidade. Quem ama alguém com alma de borboleta não precisa ficar inseguro ou sentir-se enciumado. Sua aprendizagem se constrói a partir do contato com o mundo. Borboletas conhecem o seu jardim, sua casa, sua família, mas precisam interagir. Amam profundamente suas flores e sabem que elas são a sua razão de existir. 

Borboletas são alegres:
Adoram "borboletear", se estiverem sós serão absolutamente felizes, mas acompanhadas são capazes de promover um lindo espetáculo de Ballet.  

Borboletas são coloridas:
As borboletas recebem amorosas vibrações do criador para compartilharem com o mundo, colorindo o caminho. São coloridas, mas cada qual externando sua particular vibração: cada uma é única, o conjunto da obra constitui a diversidade. 

Eu tenho alma de borboleta! Borboleta azul em flores vermelhas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016




Tem gosto pra tudo
Só não sei se tem jeito
Pra gosto como o meu
Eu prefiro sofrer de amor
Que não ter amor pra sofrer
O desamor é um vazio

É um oco e faz eco.

Meu amor foi embora
De tanto não ser correspondido
Morreu
Me perdoem os céticos
Estou de luto agora
Pelo amor que morreu ontem
Foi embora.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Homem Irracional

Quando se está verdadeiramente apaixonada, o mais importante é estar junto ou, ainda que distante do outro, estar conectado de alguma forma. Fico pensando, então, o que é pior para uma mulher apaixonada: ser abandonada na porta do altar ou na porta do cinema.

Gabriela ficou horas esperando para se casar, pois o noivo tomou um pileque na despedida de solteiro e quase teve um coma alcoólico. Mesmo assim apresentou-se com atraso, munido do comprovante de internação. Casaram-se.

Carolina, melhor amiga de Gabriela, conheceu um moço elegante num dia de agosto, inteligente e carinhoso, sempre muito atencioso, um lindo menino que a cativou. Foi numa noite fria de inverno que se encontraram quase ao acaso. Sua gentileza e sorriso aproximaram os seus corações. A chuva fina e o frio aproximaram os seus corpos. Marcaram então um cinema para a semana seguinte.

No dia marcado investiu algumas horas nos preparativos e no translado até o local marcado. A hora do filme se aproximava e ele não chegava. Ela, já inquieta, comprou os ingressos e depois a pipoca. Já chegava a um nível de ansiedade que comia a pipoca antes mesmo de entrar no cinema. Enfim chegou... Chegou uma mensagem no seu celular:
“Tive um imprevisto esta semana no meu trabalho, não conseguiria chegar a tempo.”

Como assim “um imprevisto esta semana?” Poderia ter avisado no dia anterior, até por telefone, pensou Carolina. Lembrou-se da amiga Gabriela e da história do seu casamento, tentou consolar seu coração, mas foi inevitável interpretar a mensagem subliminar:

“Eu não sabia bem se queria ir ao cinema com você, como estava aqui nessa dúvida e só agora decidi que realmente não quero, mas não sabia como dizer, eu aproveito o imprevisto pra ir embora. Por favor, não insista.” Assinado: imaginação da Carolina.

Sentou-se na rua, no meio fio em frente ao cinema, com o saco de pipocas nas mãos, chorava compulsivamente. Ligou pra amiga Gabriela que se comprometeu com o seu resgate, acabada e abandonada na porta do cinema. Em meia hora Gabriela chegou e se deparou com a cena: Carolina desfigurada, desolada e descabelada. Até o pipoqueiro fazia afagos e dizia que ia ficar tudo bem.

Gabriela, grande amiga, procurou ser razoável, dizia que isso acontece e que deveria ser compreensiva, que o motivo era plausível e logo ele se retrataria.

_ Amiga, eu investi meu sentimento, gastei horas me preparando para o encontro, fui ao salão fazer as unhas e depilação meia perna...

Gabriela interrompeu a fala da amiga descabelada e parou de tentar amenizar as coisas, partiu para o ataque:

_ Nunca desperdice a depilação de uma mulher! Pare de chorar por alguém que não te merece! E veja se da próxima vez que marcar algo com alguém marque o bom e tradicional barzinho.

Carolina apenas queria que percebesse que era ele o ator principal com direito a indicação ao Oscar, o filme era apenas o coadjuvante naquele encontro. Numa atitude adolescente, ligou pra ele dizendo-lhe que “é um homem irracional e insensível” e nem deu tempo para que respondesse. Bloqueou-o no celular, desfez a amizade no facebook, excluiu todas as mensagens e vestígios de sua passagem em sua vida. Do meteórico romance só restou essa crônica, nenhum filme será rodado. 

Nota: Homem Irracional, filme do gênero drama dirigido por Woody Allen, EUA - 2015.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015



Melancolia não é tristeza, 
e não precisa ser triste! 
Melancolia não é solidão.

É uma imensa saudade que sentimos no fundo de nossa alma, 
às vezes nem sabemos precisar de quê ou de quem. 

Tenho enorme saudade de um grande amor que não conheci! 


Melancolia é espera.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Final feliz

Rebeldia da Helena

Minha pequena Helena sempre revisa meus textos. Encerrada uma nova crônica chamei-a para fazer a revisão. Leu com o cuidado e o carinho costumeiros, pelo caminho da leitura ia corrigindo a pontuação. A história tinha apenas dois personagens: um moço com ar de formalidade e uma menina decididamente apaixonada.

Helena chegou ao final da leitura e disse não ter entendido.  Releu a história. O final era sutil, deixando livre a interpretação ao leitor. Na condição de autora, para mim estava muito claro: a menina morria no final. 

Dizia a história que anoitecia, ela dormiria para sempre, cansada de tanto esperar a volta de seu grande amor. Não era qualquer desfecho de vida e nem havia morrido de amor, era uma morte sublime. Seu coração estava repleto e preenchido, envelheceu e simplesmente partiu sem dor ou agonia, ainda que solitária.

Fofura aparente!
_ Como assim, “caaaara”. Na moral, como “tu” termina uma história desse jeito? Que absurdo!!! Não vou corrigir, não vou corrigir mais nada! Não me chame mais.

Eu gosto de filme triste porque prefiro chorar com a ficção!

Mas a minha pequena revisora, num ato de pura rebeldia e subversão, me fez mudar o final da história. Manda quem pode, obedece quem tem juízo: eu nunca sei onde coloco as vírgulas, uso todas as reticências do mundo e dez pontos de exclamação. Então, terminei a história dizendo: 

_ Boa noite, meu bem. Durma com anjos! Espero-te amanhã e depois também!


_ Ahhh, agora sim!


Medo de Chuva

Petrópolis 2015

Ele chegou ao final da tarde, usava um sobretudo azul escuro com cachecol e trazia uma pequena mala em suas mãos. Era mais alto do que eu havia imaginado, um belo moço assim mesmo, mas isso não era importante.

Aguardava ansiosamente a sua visita. Convidei-o para entrar, insisti acredito que por três ou quatro vezes. Ele preferiu permanecer na varanda, mas aceitou se sentar em minha companhia. A conversa era agradável, como houvera sido todas as conversas que tivemos à distância, anteriormente. Às vezes, eu me perdia no assunto porque olhava contemplativa sem acreditar na sua presença, eu havia me apaixonado por sua inteligência e elegância.

Em sua bagagem trazia muitos projetos, expectativas, pouca mágoa, porém muita inquietação com o que não conseguia compreender e indignação com as coisas deste mundo. O que mais pesava, no entanto, era a saudade. Tinha também muita ciência para ser compartilhada e uma poesia, que trazia de longe para me ofertar.

Percebi que o céu havia escurecido. Que horas seriam?  Teria o tempo passado tão depressa? Ele apressou-se em despedir-se adivinhando a chuva que se aproximava. Disse-me que voltaria, mas não saberia precisar quando.  O motivo de sua súbita partida? Que chuva que nada, temia que a afeição por mim só fizesse aumentar a saudade que carregava.

O tempo passou, escorreu pelo telhado e inundou o chão, penetrou no solo, tal como a chuva. Retirei a fita do cabelo e fechei as janelas. Já era noite em minha vida.



_ Boa noite, durma bem. Sonhe com os anjos! Espero-te amanhã e depois também!


Nota: Agradeço ao amigo Marcelo, que embora distante e recente, sempre perto do coração, disse-me que eu era capaz... Este texto é dedicado a essa linda pessoa, tão especial e que tantas vezes compartilhou comigo seus saberes!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cantiga para HeleBia



Minhas filhas são adoráveis, a começar pelo amor incondicional que elas me têm, apesar deste meu jeitinho esquecido de ser!

Perder-me nos lugares não é dúvida: é certeza. Noutro dia eu e as minhas meninas queríamos ir à Praia Vermelha, eu na direção do carro. Depois de me perder duas vezes tentando achar o caminho chegamos à Ipanema. Ah, tudo bem, é praia também.

Ter mãe transtornada é assim, não existe essa coisa de querer ir a algum lugar, a gente chega onde consegue chegar. Nunca sei a diferença entre esquerda e direita, iPod e iPad e assim por diante. Eu sempre esqueço o nome de coisas muito simples:

_ Como é mesmo o nome daquele negócio que a gente joga o macarrão depois que fica pronto?

_ Escorredor de macarrão, mãe! 



_ É isso! Obrigada, querida. Pega pra mamãe, por favor.


Um dia perdi a Beatriz na praça. Tinha uma apresentação circense e paramos para ver, ela tinha pouco mais de um metro e eu podia vê-la na minha frente com minha visão periférica enquanto conversava com minha cunhada. De repente não mais a vi. Comecei a gritar e correr pela praça, mobilizei toda a família em busca da criança. Roubei a cena: os espectadores do circo já me olhavam querendo saber o que estava acontecendo. Até que alguém disse:

_ A menina está aqui!

_ Onde?

Onde!?! No mesmo lugar em que eu a deixei, ela apenas havia se sentado, e continuava entretida com a apresentação.

Mas o pior foi o dia em que esqueci o nome da minha filha mais nova. Uma amiga me encontrou na rua quando estava a caminho do pediatra para uma consulta de rotina.

_ Lindo bebê, é uma menina, não é?


_ Sim! (E disso eu não tive a menor dúvida)



_ E como é o nome dela?


Eu olhava para a pessoa, depois para o bebê em meus braços, novamente para a pessoa, e para o bebê... um branco em minha mente, vazio total. Desesperador. Não conseguia lembrar o nome da pequena criatura. Só tinha uma semana em minha vida, a anestesia ainda entorpecida minha mente, já não sabia mais o que dizer pra mim mesma, nem que desculpas iriam me desculpar? Por fim, eu disse constrangida:

_ Eu não me lembro!

Helena é o seu nome, lindo nome, linda menina. Seu nome é uma canção muito especial para mim (Helena – Byafra), embora ela goste de pensar que é a homenagem à Helena de Tróia, a mais linda mulher já nascida no planeta em todos os tempos, motivo de disputa entre Menelau e Páris. Então se apresenta aonde chega, a despeito de toda essa história, com personalidade e ousadia: não sou Nena, não sou Leninha, meu nome é HELENA.



Elas são companheiras de viagem, lindas por dentro e por fora, as melhores. E já me prometeram que quando a melhor idade chegar, serão minhas mães, não me perderão na praça nem esquecerão meu nome. Que bom!