domingo, 18 de outubro de 2015


Amor à primeira batida


Nem sempre aquilo que nos parece um desastre é de fato ruim, como um amor à primeira batida, por exemplo.

Mariana e Mauro se conheceram em uma dessas situações no mínimo conflituosa, pra não dizer belicosa, mas hoje (eu juro que sim) vivem entre “os meus, os seus e os nossos” e, apesar do cotidiano, em imensa felicidade.

Mariana é conhecida por sua impulsividade quase teatral, beirando a insanidade, mas uma delícia de pessoa, amável e educada, desde que não seja provocada. Separou-se do marido depois de descobrir que o infeliz tinha uma amante. A princípio tentou reconquistá-lo, depois prometeu fazer de sua vida um inferno.

Mauro é um homem tranquilo e gentil, inteligente, sabe cozinhar e gosta de cuidar das crianças, um homem que toda mulher queria ter, com exceção da sua ex: pediu o divórcio alegando que perdera a paciência com sua quase perfeição, “enjoado demais” dizia ela.

Foi num estacionamento do shopping que se conheceram. Mariana seguia secretamente a atual de seu ex-marido, precisou fazer manobra radical e acertou a traseira do carro de Mauro que esperava parado para entrar de ré na vaga deixada por Mariana. Ela saltou do carro para ver o estrago. Mauro esboçou um pequeno sermão que culminaria na cobrança do prejuízo causado quando Mariana perguntou, cinicamente, o que fazia com o carro parado a sua frente: o argumento de Mariana era tão absurdo que deixou Mauro sem palavras.

Mariana gritou, xingou aquele que julgava ser seu algoz, afinal perdera a sirigaita de vista. Depois, percebendo a expressão estupefata do sujeito, aproveitou-se e simulou um ataque de nervos. Por fim, ela tirou os sapatos, Mauro protegeu a cabeça com os braços, julgando que seria atacado a sapatadas, “estaria enlouquecida?”. Ela sentou-se no meio fio e chorava como criança, agora completamente entregue e sincera... o homem compadecido pela mocinha descomposta ofereceu-lhe o ombro, perdoou-lhe a dívida, ofereceu-lhe uma carona e por fim o seu coração, só pediu-lhe em troca que o aceitasse em casamento.


Além dos filhos que já tinham, tiveram mais dois. Uniram suas escovas de dente debaixo do mesmo teto, o do banheiro nesse caso. Porém, assim como a escova de dente, o carro cada um tem o seu: não se empresta e não se fala mais nisso!

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